Belo Horizonte – MG
21.9.2000
Senhor Presidente do CFMV, senhores dirigentes, senhores professores, alunos e demais integrantes deste fórum,
No ano passado assisti a uma palestra de Tom Peters, autor do livro O círculo da Inovação. Ele a iniciava perguntando a platéia qual era a distância entre a cidade São Paulo e Beijing na China. Antes que as pessoas respondessem, ele antecipou e disse: sete segundos. Este é o tempo que se gasta para estabelecer a conexão por telefone ou por computador entre dois interlocutores, seja através de satélites ou de cabos, mesmo para distância geográfica tão grande. Depois falou sobre a distância e disse que a ela morreu.
A facilidade de comunicação valoriza a informação que é um dos instrumentos mais importantes para o sucesso das pessoas. No próximo milênio será determinante.
Em seguida, ele informava que nos próximos 20 anos entrarão no mercado de trabalho um bilhão e setecentos milhões de trabalhadores asiáticos, alfabetizados, que farão de tudo para colocar no comércio mundial os produtos por eles fabricados e os seus serviços correlatos. A participação da Ásia na produção econômica mundial deverá dobrar para 50 por cento ou mais no mesmo período.
Bill Gates em A empresa na Velocidade do Pensamento, analisa com profundidade o trabalho no mundo com a rede de computadores e descreve como a maioria dos trabalhadores esteve confinada pela geografia até que essa ferramenta fosse colocada a disposição da comunidade humana. Hoje o E-mail e o telefone proporcionam interação com colegas e clientes, mas na maior parte do tempo o trabalho é ainda solitário. Mas essa tecnologia esta removendo barreiras geográficas no trabalho. Varias empresas de software da Índia estão dando suporte para firmas americanas. Aproveitando-se da diferença de fuso horário, trabalham nos problemas enquanto os Estados Unidos dormem, e têm soluções prontas para os clientes na primeira hora de trabalho da manhã seguinte americana.
Quando vejo tantas inovações e a velocidade que elas se processam analiso o que aconteceu comigo nestes meus cinqüenta anos de vida. Nasci em uma cidade do interior, numa época em que a energia elétrica era privilégio das cidades grandes. A que tínhamos era regrada e havia hora marcada para acabar. Conheci televisão quando já passara da idade escolar. O telefone custou a chegar e, fazer uma ligação interurbana era um teste de paciência. Vi as máquinas de escrever avançarem e desaparecerem. Assisti o nascimento e a morte do telex. Acompanho, agora, a agonia do fax diante da força do computador. Às vezes, fico pensando, como era possível viver sem telefone celular, sem computador pessoal e acima de tudo sem os controles remotos que nos fazem tão felizes, diante de imagens e de sons.
Tudo mudou tão rapidamente neste últimos anos que nem sempre consegui absorver o impacto dessa descomunal mudança. Sei que o mundo mudará muito mais rapidamente daqui para a frente e é preciso que todos participem dessa transformação para produzir mais e garantir cada dia colocações de trabalho, abrigo, alimentos, agasalhos e qualidade de vida para os homens, garantindo a sua sobrevivência neste planeta Terra.
Sei que tudo acontecerá dentro de uma ordem imprevisível, mas muitas coisas boas acontecerão, sem dúvida. O que mais me preocupa, entretanto, não é futuro, mas o que acontece hoje e como posso dar minha contribuição para que o mundo seja melhor.
Diante de tantas transformações e avanços o homem continua o mesmo com suas dúvidas, conflitos e sentimentos. Continuamos sem saber de onde viemos e para onde vamos.
Na minha formação tive a felicidade de cursar uma universidade gratuita que ampliou meus conhecimentos e me forneceu as bases para que eu pudesse entender as coisas que passavam ao meu redor de forma globalizada. Essa instituição, tão mal compreendida pela sociedade latina, foi um abrigo especial para mim. Ofereceu-me cultura científica, ampliou o meu relacionamento com a ciência e com as pessoas, me fez enxergar o mundo de uma maneira tão fantástica que a ela serei grato para sempre. Durante 20 anos fui um de seus professores.
Procurei vive-la com intensidade e busquei ser útil onde ela precisava de mim. Quando mais lhe dava , mais ela me retribuía. Criou em mim a base para que eu pudesse prestar à sociedade um serviço de utilidade, ganhando dinheiro e gerando trabalho, multiplicando o que com ela aprendi.
Deixei de ser professor, mas não desejo que a universidade me deixe.
Há quinze anos sou empresário, e trabalho dentro do ramo em que me graduei. Lido com o campo, seus problema e suas soluções. Enfrento no meu dia-a-dia os desacertos, a insensibilidade e os desatinos de governantes. Mas, me beneficio de seu acertos, também.
Sinto o quanto é bom e importante trabalhar para oferecer oportunidades aos outros, pregar no dia-a-dia a correção e o compromisso, ensinar aos que precisam de conhecimento, mostrar o valor da riqueza e sua importância para as pessoas e para a sociedade, fazendo com que ela produza não só bens, mas também felicidade.
Procuro estar sempre otimista e pratico o bom humor como regra de vida.
Enfrento as dificuldades de maneira positiva, vendo o mundo pela óptica de realizações e acreditando que não existe problema sem solução.
Peço, agora, permissão aos senhores, para expor o meu pensamento sobre o processo educativo do profissional formado, friso – formado-, sinônimo de feito, construído pela universidade.
Afinal, que atributos deve ter esse homem que o mercado exige? O que ele precisa saber para se dar bem na vida? Como ele deve se comportar? Como deve encarar o mundo e suas inovações? Quais os compromissos que deve ter? Qual a linguagem que utilizará? Que conhecimentos deverá agregar em si?
Penso que acima de tudo a sociedade precisa de pessoas que prestem como seres humanos, que tenham caráter e ajam com ética.
Pessoas que aprendam com mestres e não com instrutores ou professores de mentira. Pessoas que sejam tratadas com educação, com carinho e disciplina.
Pessoas compreendidas e respeitadas e que saibam compreender e respeitar. Homens decentes, sérios e comprometidos; alicerce do bom profissional.
Neste ponto, sempre entendi que a universidade tem o papel educador e formador, não apenas de profissionais, mas de cidadãos.
Por isso ela deve ser uma escola que continue a ensinar, compreendendo que o aprendizado é de fato um processo que nunca termina. Ela deve ser o local onde predominem a seriedade, a ciência e a lógica. Um espaço onde não exista guarida para a irresponsabilidade e para a displicência.
E preciso ter a coragem de ensinar de verdade e cobrar de verdade. É preciso acabar com a elasticidade da relação instrutor-aluno que permiti a professores despreparados, deixar alunos relapsos chegarem ao mercado de trabalho sem a qualificação profissional necessária. Seria ótimo se a relação fosse a de mestre e aprendiz. Para que isto aconteça tem que mudar.
A primeira mudança que considero oportuna é no comportamento dos dirigentes e dos professores. Se não entenderem que são educadores jamais conseguirão implementar as mudanças para atingir o aluno fazendo dele o profissional ético, responsável e rico de conhecimento.
Para isso, lembro o velho provérbio “o exemplo não é apenas a melhor forma de ensinar, mas a única”.
Os professores tem a obrigação de servirem de exemplo para seus alunos e assim, deles se tornarem mestres.
A segunda mudança é no comportamento dos alunos. Eles precisam compreender o valor que tem a universidade, e quanto ela pode fazer por eles. E quanto eles próprios podem fazer para si mesmos e para sociedade ser estiverem bem preparados. Para isso sugiro que se crie em cada um a consciência da importância real que a medicina veterinária tem como profissão decente e digna.
É obrigação de quem ensina ajudar na elevação da auto-estima de quem aprende. É preciso mostrar exemplos dos que vencem e dos que conseguiram realizar seus desejos. Dos que são sérios, dos que se comprometem , dos que trabalham, realizam e multiplicam. Dos que amam de verdade sua profissão, fazendo o melhor que podem, sem lamúrias, sem negativismo, para o seu bem pessoal e de sua pátria.
Gostaria muito de ver resgatado o amor próprio dos alunos e sentir neles um desejo de cobrança criando, assim, um círculo positivo, onde o professor cobra do aluno o aprendizado. E , o aluno, do professor a competência.
Maior atenção para a ética não pode vir desacompanhada da formação técnico-científica.
Em um mundo globalizado será impossível vencer se o profissional não estiver preparado. Se desconhecer as regras do mercado e não entender o que significam marketing e inovação, estará completamente alijado das boas oportunidades.
Em minha empresa trabalham hoje trinta e oito médicos veterinários, exercendo desde funções diretivas, gerenciais, técnicas e de vendas, além de diversos executivos das mais variadas profissões. E a minha maior dificuldade é a de selecionar profissionais qualificados e competentes. Em todos os casos os recém-contratados, precisam passar por um programa de capacitação adicional que dura no mínimo dois anos. Esta foi a maneira que encontramos para suprir as deficiências técnicas encontradas nas pessoas já que o caráter é determinante para a seleção de qualquer profissional.
Todas as vezes que abrimos espaços para contratações recebemos inúmeras ofertas de currículos. Sempre damos preferência aos estagiários que já passaram pela empresa ou por outras similares a nossa. A maioria dos currículos é boa. O que não agrada é a conduta e o conhecimento do pretendente. A entrevista individual fumina a maioria.
Gente que não tem apresentação, não tem postura, não sabe falar, não tem raciocínio lógico, não conhece de informática, não sabe ler uma bula em inglês, não tem bagagem cultural apesar de ter passado mais de 15 anos em bancos escolares. Pessoas que não lêem, não entendem de informação globalizada, não estão preparadas para conviver no mundo dos negócios.
É grande o número de pretendentes que chega a empresa com a auto-estima em baixa, achando que entraram em uma roubada ao se formarem em curso que tem mais queda para ofício do que para profissão. Que erro; que desinformação!
Naquela hora, deixo aflorar o professor que mora em mim e mostro a cada um a boa escolha que fez ao optar por ser veterinário. Falo das necessidades da empresa e do país e mostro-lhe o quanto ele é importante para a comunidade e que ele só não será contratado se lhe faltar bagagem. O emprego existe e está disponível, só não aceita a mediocridade.
A motivação é o combustível da vida. Só ela produz mudança verdadeira.
De nada adianta, alterar currículos escolares, introduzir disciplinas novas se as pessoas não compreenderem o objetivo da mudança, sua importância e não se comprometerem com ela
Peço permissão, mais uma vez, para continuar sugerindo.
Proponho além das mudanças já descritas que as escolas de veterinária, que ainda não fizeram, percam o receio e proponham parcerias reais e sinceras com as empresas.
Passem a viver o processo mercantil e entendam que no mundo dos negócios existe tanta seriedade como há no mundo acadêmico. Essa parceria vem dando certo em todas as instituições que a estão adotando.
Sugiro que dêem foco especial as disciplinas ligadas aos agronegócios, estabelecendo com clareza a relação entre marca, produto e cliente.
Que reforcem as exigências quanto a dedicação dos alunos, cobrando o conhecimento de tudo que lhes foi ensinado. Não tenham pena nessa área. Batam duro!
Que melhorem o sistema de estágio curricular obrigatório levando o aluno, ainda como estudante a conviver com a realidade que enfrentará depois de graduado.
Informem com clareza a cada acadêmico a razão da existência das disciplinas e a inter-relação entre elas e o porquê das ações executivas.
Melhorem as informações e invistam em comunicação, dando transparência aos procedimentos adotados. Façam tudo para manter as pessoas motivadas e entusiasmadas. Aí reside o sucesso de qualquer emprendimento.
Por fim, volto a lembrar que a velocidade da mudança pode nos colocar juntos com os países que estão investindo mais e mais na qualidade formação de seus profissionais. Caso contrário, ficaremos para trás, em posição de inferioridade e dependência que será ruim para todos nós. Pessoal qualificado , necessitado de espaço e de trabalho, vindo de outros países, poderá ocupar valiosas vagas tão necessárias aos brasileiros, por culpa da nossa incapacidade de supri-las.
Com essa economia sem fronteiras aparentes, com informações democratizadas e ao alcance de um número cada vez maior de pessoas no mundo não podemos desconsiderar o seu peso e importância, nesta hora que se discute o perfil do profissional de veterinária a ser formado pelas nossas instituições de ensino superior.
Pensem nisso!
Muito obrigado a todos.