Archive for the ‘Diversos’ Category

Um Conceito de Felicidade março 25th, 2012

Ronaldo Zica

Sempre me pergunto o que é felicidade. E penso que as pessoas costumam fazer esta pergunta para elas, também.

Sei que  envolve coisas materiais, as ligadas ao espírito e ao sentimento.

Ser bonito, rico, famoso é o desejo de muita gente. Para outros  ser bom, correto, generoso já é de bom tamanho. Para muitos ter um amor, muitos amigos é meta a ser perseguida a vida inteira. Quanta coisa caberia aqui para criar o condição desejada de felicidade. Cada pessoa a define de uma maneira diferente e tem a sua maneira individual de expressá-la.

Para mim ser feliz é estar em paz comigo mesmo. É amanhecer cada dia com o desejo de vivê-lo independente da condição que ele me trará. Pode ser alegre ou triste. Quente ou frio. Ensolarado ou chuvoso. Os problemas não deixarão de existir nunca e, as minhas contradições estarão sempre presentes. A condição humana que exige os alimentos para o corpo e para o espírito serão necessárias e as obrigações físicas impõem comportamentos e atitudes que independem da vontade de quem quer que seja.

Uma parte depende de nós outra da natureza. Não temos como fugir disso. Portanto, não adianta espernear demais tentando encontrar respostas e soluções para tudo.

Ser feliz é estar bem consigo mesmo

Sou ansioso e brigo o tempo todo com esse traço que detesto em mim. Gostaria de ser mais desligado, mais liberto de coisas que irão acontecer ou não. Gostaria de me entregar totalmente nos braços do Creador e ficar tranquilo porque sei que tudo depende de seu plano nesta minha passagem por este planetinha lindo.

Infelizmente a gente tem tantos defeitos, sejam os de fabricação ou os que vamos adquirindo ao longo da vida que somos obrigados a  uma luta  permanente – uma guerra – para combatê-los. E nesse clima de confusão entre a correção dos desvios  e o desejo de estar feliz que vamos construindo a vida que temos. Felizmente esquecendo que um dia vamos morrer e que deixaremos tudo para trás.

Da infância à maturidade buscamos uma razão para estarde  bem conosco mesmos. É isso que a maioria chama de felicidade. Ser o mais bonito da turma, com uma estampa que chama a atenção faz um bem enorme quando se procura impressionar os outros, principalmente uma namorada nova, um bom negócio ou um encontro interessante. Um carro possante e diferente é desejo incontrolável. Ser reconhecido na rua, chamado pelo nome por um garçom na lanchonete, ter garrafa de Whisky identificada no bar da moda é coisa importante para alguns. Usar relógio caro, um par de óculos grifado sem dizer nas bolsas francesas que só, os de mesmo nível, sabem quanto custam, são motivos de felicidades para muitos.

Falar das viagens internacionais, da casa nova no condomínio de luxo, se mostrar próspero nos negócios é bacana para muita gente. E dá-lhe espaço para a etiqueta sem-vergonha exposta de maneira hipócrita, para indicar o nome famoso, que é vendida por um preço exorbitante, não pela qualidade, mas pelo traço que a identifica.

Então, quem pode criticar os outros por gostar de tudo isso? Tenho minhas incoerências.Faço coisas que não gostaria.  Mas vou vivendo sem me esquecer que a alma precisa se alimentar também.

Tudo isso faz parte deste mundo que se prima pela matéria. Precisamos dela para viver: alimento, casa, fazenda, carro e assim por diante. É bom não se esquecer da saúde, do conhecimento, da segurança e do equilíbrio…

Por isso,  penso que só a paz que construímos dentro de nós, quando agimos com integridade, corrigindo sistematicamente os erros, falhas e deslizes  podemos emitir o nosso próprio conceito de felicidade sem criticar ninguém, dar lições, ou ser um  juiz severo no julgamento alheio e camarada quando se tratar das nossas próprias ações.

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Lealdade março 11th, 2012

Ronaldo Zica

Lealdade é uma qualidade natural dos cães que nem todos os homens possuem.

Sempre apreciei a amizade verdadeira e admiro as pessoas que conseguem mantê-la por longo tempo. Afinal a proximidade, quase sempre, cobra uma transparência que o tempo se encarrega de ir revelando. Aí é difícil esconder os limites, as fraquezas e as  falhas na convivência. Por outro lado temos que ter a compreensão para entender e perdoar as dificuldades do outro, também.

Procurei durante  minha vida ser fiel àqueles que dedico afeto, amizade e recebi dos meus amigos verdadeiros o mesmo tratamento. Por isso, acho que nossos relacionamentos duram  tanto tempo. Não sou de  muitos amigos, mas os poucos que tenho, procuro  mantê-los, independente das intensidades dos encontros.

Na semana passada perdi um desses  (8/3).

Durante mais de 26 anos convivemos quase que diariamente. Além das relações profissionais, sempre encontrávamos um tempo para a conversa ampla e sem limites. Do cotidiano às polemicas sobre filosofia e política. Bons momentos, sem dúvida, que marcavam o tempo e nos deixavam à vontade para expressar pontos de vistas e argumentos que serviam para alimentar o diálogo e o desejo de continuar convivendo.

Quando deixei o cemitério chorei, mais uma vez, pela estrada.

Há pessoas que não deveriam morrer, não! Deixam um vazio, uma saudade… Um espaço que jamais será preenchido porque fora ocupado com tanta intensidade no coração da gente que não será destinado a mais ninguém. E a ausência é uma falta que fica ali presente para sempre.

amigos de verdade

Tive durante minha vida oportunidades de conhecer inúmeras pessoas. Fui professor, empresário e isto propiciou um encontro natural com outros seres humanos por longos períodos. Nessas ocasiões pude, de perto, conviver com seres de todos os tipos. Desde gente boa, correta e generosa aos piores caráteres que habitam esse planeta. Gente falsa, má, egoísta, mesquinha e que desperta, ainda em mim, um sentimento de desprezo – que luto contra ele –  mas não consigo superar.

Há pessoas que com apenas um olhar nos enchem de ternura. Outras,  mesmo com uma convivência de anos a fio não conseguem ganhar espaço em nossos corações. Para ser amigo de verdade é necessário ter sintonia, cumplicidade, respeito e transparência. São poucos os que querem abrir mão de sua intimidade, de sua liberdade de guardar só para si o lado feio do seu comportamento porque temem a exposição de suas fraquezas e iniquidades.

Existe gente que não precisa de amigo. Porque sua vaidade é tão intensa que o amor por si próprio lhe faz feliz em conviver apenas consigo mesmo. Normalmente é um chato que poucos toleram. Faz parte do grupo dos insuportáveis que não medem atitudes para humilhar e destruir os outros, principalmente os  indefesos. Para se sustentar no meio social faz todo o esforço do mundo para parecer o que não é. É o homem montado para a ocasião. O falso  que é capaz de tudo para  se beneficiar e alimentar seu orgulho e suficiência. É o egoísta clássico.

Gosto demais de pessoas verdadeiras. Do homem comum cheio de defeitos como eu mesmo. Que sabe de suas limitações e incoerências, ainda assim, procura  companheiros para compartilhar seus sentimentos.

Foi desse jeito com o Afrânio. Durante anos exercitamos uma amizade sadia . Comprometida, interessada unicamente no bem do outro. Sempre limpa, honesta, sincera e que me orgulha por sua qualidade.

Não preciso enaltecer o amigo, pois seus valores são conhecidas por todos que conviveram com ele. Mas, poucos, muito poucos mesmo, foram tão leais em vida. Um homem de bem. Exemplo de decência e dignidade!

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Maltrato outubro 22nd, 2011

Ronaldo Zica

Ontem após um dia chuvoso sai andando pela fazenda. Passei pelas invernadas onde os tratoristas limpavam com  máquinas as pastagens. Parava, olhava o trabalho, via o gado e seguia. circulei muito. Fui até o rio, caminhando por uma mata fechada e úmida, que me estimulava com cheiro de terra  molhada e folhas novinhas.

Quase sempre vinha a minha mente pensamentos. Cada momento aparecia um diferente. Depois, um ficou permanente: por que as pessoas maltratam as outras? Por que maltratam os animais? Por que maltratam o planeta? E assim foram aparecendo interrogações uma atrás da outra. Pensei: preciso ordenar essa bagunça. Por onde vou começar a reflexão?

Como vinha devagarinho, quase sem fazer barulho, parei embaixo de uma árvore frondosa e me veio uma crise de espirros que foi seguida de uma barulheira infernal. Lá encima tinha um bando de macacos que se assustou com minha presença. Fiquei desorientado também e sai correndo. Quando percebi que não havia perigo nenhum comecei a rir daquela surpresa. Assustado por um bando de macacos prego no momento em que meu cérebro começava a processar o método que eu havia escolhido para ordenar o pensamento, era demais.

Deixa pra lá os macacos e vamos as interrogações.

Por que maltratar o planeta, esta casa de beleza extraordinária, que foi dada ao homem para viver. Lixo por todo lado, fontes de águas violadas, matas derrubadas, excesso de suspensão no ar, sub-solo cheio de esgoto e estacas para sustentar prédios, gasto exagerado de petróleo para mover máquinas, carros, aviões… É tanta necessidade criada para explorar e sujar a Terra que um dia ela pode ficar magoada e querer-se vingar.

Por que agimos assim? Somos loucos, ou burros (minha desculpa a esse útil animal) para não entender que é importante preservá-la para a nossa própria sobrevivência? É a pura insensatez, acabei concluíndo, na minha filosofia rasa e de pouca consistência.

E os homens, por que maltratam os animais?

 _ Aí é covardia, maldade mesmo… Não precisei gastar mais energia para dar meu veredito.

E por que maltratam as pessoas?

 _ Essa aí e dura de responder. São tantas as razões que é impossível achar uma resposta numa caminhada como a minha; ainda mais que  eu me lembrava dos macacos e ria.  A maldade, a vigança, a inveja, o ódio, a covardia, a raiva e outros sentimentos menores que os homems cultivam podem dar vazão a esse processo insidioso

 Fico triste quando maltrato alguém, vejo esse meu lado ruim e  me envergonho quando ajo assim. Gostaria de fazer uma recomposição imediata. Um pedido de perdão ou de desculpa. Nem sempre é fácil proceder desse modo. O mal está feito e o orgulho, muitas vezes, não deixa a bola baixar. Mas, fico mal comigo, cheio de questionamentos e perguntas sobre o meu procedimento. Seria bom se tivesse evitado a causa, deixado passar e não ter cometido o ato, que dele, é certo, iria me arrepender mais tarde.

É ruim demais ser maltratado. Pior é maltratar os outros e cravar-lhes na alma uma dor desnecessária.

Continuei andando, agora por um varjão todo verdinho, com vacas brancas e bezerrinhos que nasciam em aquele dia.

Que bom seria se a vida fosse feita de  silêncio das matas e sustos de macacos. E eu na minha insignificância de homem comum, pudesse olhar para trás e não ver em meus rastros marcas de insensatez de ter ferido alguém, deixando em seu coração cicatriz, que mesmo com o perdão, eu não poderei mais apagar.

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A Força do Abraço outubro 21st, 2011

Ronaldo Zica

Sempre achei bonito ver duas pessoas se abraçando. É uma atitude interessante onde os corpos se tocam, em uma proximidade pouco usual, demonstrando intimidade e produzindo um gesto de carinho. E carinho é tão bom!

Fico pensando como seria melhor se as pessoas que se gostam ao se encontrarem, ao invés do tradicional aperto de mão (que também é um pequeno abraço), pudessem agir assim.

 

São muitas as formas de abraçar. Existe aquela em que os filhos, com seus braços, formam um colar que envolvem o pescoço de seus pais. O do criança  e se agarrrando em nossas pernas. O abraço dos namorados cheios de paixão, apertando o máximo que conseguem o corpo do ser amado. Oh! que saudade… Tem o abraço dos amigos genuínos trocados com afeição. Tem o da chegada. O da partida. O da noite pondo sintonia na hora do amor. Tem os abraços mentirosos, também. Daqueles que custamos a nos desvencilhar quando não é sincero ou carregado de hipocrisia. Nessa hora é melhor fugir, mesmo. Nada pior que um falso abraço.

Sempre gostei de abraçar e de ser abraçado. Em todas as ocasiões sinto uma troca de energia positiva e verdadeira . Existem os abraços inesquecíveis, aqueles que carregamos como os melhores, os mais gostosos e que  dão prazer  em recordar. Lembro-me de alguns que marcaram minha vida  e os guardo com cuidado para deles nunca me esquecer.

Há poucos dias uma pessoa que abracei não me soltava e, como tenho por regra ser o último a sair, ficamos parados um tempão agarrados indiferentes as pessoas que olhavam. Uma outra, que vira aquilo em plena livraria, abordou-me  e pediu que lhe abraçasse também.

 _  Moço, será que mereço um abraço seu?

Fiquei um pouco tímido diante da solicitação inesperada de alguém que não conhecia, mas, fiz o que  pediu. Depois  falou-me que fazia anos que não era abraçada por ninguém.

Que tinha muita vontade que aquilo acontecesse regularmente em sua vida e não encontrava oportunidade. Sentia uma carência enorme de amor, pois a solidão era sua mais presente companhia. Fora criada em um sistema que vedava o contato físico  e sentia o quanto havia perdido de afeto por anos a fio. Uma vida inteira sem compartilhar essa emoção tão especial.

Todos que tem coração desejam ser amados. Raramente encontrei quem não gostasse de atenção. A gentileza toca até os mais rudes e duros. Não há nada mais forte que o amor e o abraço é a demonstração dessa força.

Todas as vezes que abraçamos alguém é como se tivessemos lhe dizendo o quanto é importante em nossa vida e quanto desejamos sua presença juntinho de nós. O abraço não é tão íntimo como o beijo, principalmente aquele em que as bocas se tocam.  Por mais chegado que seja, raramente demonstra um desejo sensual. É uma expressão de felicidade que não agride nem mesmo os mais preconceituosos e pode ser dado em qualquer lugar.

Pensei de novo: como as convenções humanas limitam as demonstrações de afeto. Quanto não se perde no dia a dia de momentos bons para trocar, com quem amamos, essa forma gostosa de carinho.

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Um Sorriso Um Olhar janeiro 18th, 2011

Ronaldo Zica

Nada me chama mais atenção nas pessoas que um sorisso ou um olhar. Daqueles que entram alma a dentro e que revelam a emoção verdadeira de quem os lança no ar. Que coisa linda é a expressão de felicidade que essas estruturas que trazemos nas faces são capazes de revelar. Quando o sorriso se casa como o olhar é a perfeição maior que o ser humano pode produzir em beleza para demonstrar uma afeição. É a alma saindo do corpo nos envolvendo com a ternura semelhante a do sol que se abre sobre a terra espantando a manhã escura.

Em dois anos e meio, minhas filhas e meus genros me deram dois casais de netos. Quatro criaturas especiais que acrescentaram à minha vida um prazer nunca por mim experimentado. Acompanhei com cuidado o nascimento de cada um. Participei em tudo que achava necessário ou importante, sempre respeitando o desejo e as decisões de seus pais.   Dediquei tempo para acompanhar seus nascimento, com suas caracterisiticas próprias e individuais. Faço questão que pegá-los no colo, desde molinhos, e sem me conter lhes dou os beijos que nunca me satifazem. Sempre quero mais. De vagarinho estão crescendo,  descobrindo o mundo com o tato, com o olhar e agora com as palavras. São felizes e alegres demais.

Vejo sorrisos de todo tipo. Há os abertos, soltos, debochados. Os reservados e os maliciosos. Quando são corrigidos pelas travessuras, tem os seus amarelos, também.

Os olhares são enigmáticos. Sempre revelam uma intenção. Fico um tempão observando o que querem dizer em suas falas de vocabulário deficiente e com as palavras ditas de uma maneira infantil e encantadora. Recordo de meus filhos pequenos ainda, e deixo fluir as lembranças antigas renovadas agora por essa porção de reavivamento do mais puro amor que só as crianças são capazes de criar.

Sem dúvida, os netos plantam na coração dos avós um sentimento novo, gostoso , que aumenta o prazer de viver. Eles mudam, de fato, o nosso coportamento e geram razões especiais para fazer a vida ficar mais prazerosa e feliz.

Nunca aproveitei tanto o sorriso e o olhar como agora. Fico observando a renovação da vida e como ela é construída no dia a dia. Meu coração vibra com suas atitudes e minha vontade é de apertá-los sempre. Sinto-me chato por essas atitudes, mas não consigo ficar sem tocar e envolvê-los com abraços e beijos.

Acho graça de tudo que eles aprontam, mesmo das coisas erradas, e faço força para me conter quando os pais lhe chamam à atenção. Meu desejo é deixar as coisas correrem sem freio  aproveitando cada momento que passo com eles. Sou meio sem paciência e às vezes canso e me escondo procurando sossego. Sempre me acham e volto com prazer a conviver com eles, aproveitando esses momentos que são únicos, indeléveis, que guardarei em um cantinho protegido da minha alma para não perdê-los jamais.

Hoje amanheceu chovendo.  Agora abriu o sol gostoso.  Por isso que me recordei deles. É como se a natureza  se desmanchasse em um sorriso encantador, que me lembraram os dos pequeninos que enchem meu coração de amor quando me dão os seus. 

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A Mala Verde da Tia Nair outubro 4th, 2010

Ronaldo Zica
No depósito da minha chácara ficou guardada por muitos anos uma mala, daquelas antigas, meio arredondadas, que não sei se era de madeira ou papelão; revestida por uma lona verde que tinha em seu fecho um pequeno cadeado.
Todas as vezes em que eu organizava aquele espaço,  pegava a mala, tirava a poeira, e a recolocava na prateleira. Para mim era algo do meu cunhado Roberto e portanto não me preocupava com o que estava  dentro. Ele viajava muito e eu pensava que deixara ali algumas coisas guardadas que não lhes fossem necessárias, pois nunca  procurava por ela.
Aquela mala não me intrigava. A tratava com naturalidade como qualquer coisa que ficava ali sem muita importância. Como sou pouco curioso, apenas  limpava e a recolocava no mesmo lugar.
Os anos foram passando. Depois de uns quize, um dia ,chamei a Marilda e disse-lhe para ligar para o Roberto e saber dele o que fazer com aquele objeto. Afinal, eram muitos anos zelando de uma mala sem saber por quê.
Para  minha surpresa o Roberto informou que ele nunca teve nada guardado lá. E que aquela mala não era dele. Que loucura, Meu Deus, eu cuidando de um bem por tanto tempo, pensando que era de uma pessoa, e agora ele não tinha mais dono.
Resolvi violar o cadeado e ver o que tinha dentro. E ao abrir, para surpresa, maior ainda, a mala continha objetos que pertenceram a Tia Nair, que morrera há vários anos.
Dona Nair é uma das tias de minha mulher. Solteira, de temperamento forte, querida e respeitada. Professora de várias gerações. Como nunca se casou, adotou os sobrinhos como filhos e ajudou a cuidar dos dez de sua irmã, minha sogra.
Era uma pessoa magra, de comportamento disciplinado e severo. Quando a conheci há uns quarenta anos ela era uma pessoa de meia idade. Muito religiosa, guardava em si os envolvimentos com a Igreja na matriz de Campinas, onde a familia, vindo de Minas Gerais, se estabeleceu. Seu pai era farmacêutico. O primeiro daquela cidade – Campininha da Flores de Nossa Senhora da Conceição - que mais tarde se tornaria o bairro conhecido de Goiânia.
Pensei: como pude guardar por tanto tempo, coisas tão pessoais, sem que ningúem as reivindicassem ou dessem qualquer pista, ou sentissem  suas faltas.
Pedi novamente a Marilda que ligasse para sua mãe para ver o que fazer com aquelas peças que, possivelmente, teriam sido importantes  para sua dona. Papeis, santinhos, missais, terço, velas…
A resposta é que em seu apartamento não havia espaço para acomodar aquela mala. O que fazer, então, com o que estava dentro, se tudo aquilo só interessava a quem já não vivia mais? Não havia herdeiro direto ou quem quizesse guardar os objetos como lembrança…
Que lição aprendi naquele dia, fiquei pensando. Quantas coisas guardamos na vida que só interessam a nós mesmos e que damos um grande valor e não têm  utilidade para mais ninguém. Lembrei-me de alguns bens que pertenceram a dona Amália Hermano, que comprei após sua morte em processo de liquidação do espólio. Quantas coisas acumulei que só tem importância para mim e que, possivelmente, terão os mesmos destinos dos encontrados na mala da tia Nair ou nas coisas vendidas de dona Amália!
Será que vale a pena guardá-las?

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Mar e Mato janeiro 26th, 2010

Ronaldo Zica

Sempre desejei viver junto ao mar.

Sempre quiz estar no mato, em uma fazenda, no meio da natureza, com toda a sua exuberância, sossego e equilíbrio.

Como conciliar duas coisas tão diferentes?

Só se fosse em uma fazenda à beira mar. Mas, o que eu queria mesmo era uma morada no sertão, distante de tudo, longe de cidades e onde houvesse muita água corrente, bichos de florestas e eu pudesse criar o gado. Uma paixão! Queria ter cavalos e burros para montar, alguns cachorros Hiller e um terreiro cheio de aves para tratar.

Trabalhei para conseguir, no terço final da vida, me aconchegar nesses espaços. Agora venho me preparando para viver assim. Devagar vou deixando para trás o meu lado empreeendedor e me dedicando cada dia a essas outras paixões: mar e mato.

Tenho passado uma parte do tempo na fazenda e outra no mar. Nos dois lugares sempre me levanto cedo para acompanhar o amanhecer cheio de leveza e harmonia.

Procuro todos os dias encontrar um motivo para sentir o quanto é importante estar em paz no lugar que escolhi. Fico pensando nesse privilégio e agradeço a Deus por isso.

Prefiro o mar em cidade grande. Os que me conhecem sabem quanto gosto do Rio de Janeiro. É uma cidade mágica, mesmo com todos os problemas que enfrenta. Ando no calçadão, passeio de bicicleta, vou à praia, circulo pelos shoppings com os netos, percorro as ruas observando tudo. Tem teatro, shows, carnaval, gente que gosta de conversa e acima de tudo uma natureza inebriante. Às vezes me pergunto se aprecio mais o mar  ou essa cidade com sua beleza e contradições. Sem dúvida, o mar.

Paro em meus pontos de observação, como a pedra de Itapuã, que fica no meio da praia da Macumba, solto meu pensamento e  me deixo envolver pelo sol, sentindo a brisa e os respingos das ondas desse mar verde e lindo.

Há locais que me estimulam a conversar comigo, programar as correções de rumo no lado torto da minha vida e me fazem lembrar com mais carinho das pessoas que são importantes para mim. Fico um tempão quietinho pensando em amigos, na Marilda, na familia e nas coisas engraçadas que meus meus netinhos fazem. Estou sempre com saudades deles, mesmo quando os vejo a toda hora.  Minha paciência é pequena para lhe cuidar, mas não consigo ficar longe por muito tempo. Gosto de tê-los por perto. Sei que à medida que ficarem mais independentes nossa convivência será cada vez mais intensa. Acompanho a vida de todos com o cuidado de não interferir na educação que lhes dão seus pais e curto o jeito especial de cada um.

O mar me acalma, me tranquiliza e acima de tudo me energiza.

Mas, não me esqueço da fazenda. Fico com saudades e tenho vontade de ir para lá. Arrumo minhas poucas coisas e vou. Há muito tempo não carrego malas. Só a mochila do computador.

Acordo com o cantar dos galos. Logo os periquitos e pássaros-pretos farão sua algazarra matinal no bambuzal em frente a casa.

Abro a janela e vejo as vacas sendo ordenhadas. É  madrugada ainda. Daí a pouco  o sol nascerá com força intensa.

Tomo o café forte e variado. Sempre tem coisa gostosa nova na mesa. Bolo, pães de queijo quentes, frutas…

Debaixo da mangueira minha mula já está arreada e saio pelos pastos com os companheiros do dia-a-dia. Além do trabalho, muita conversa fiada.

São tantas as opções que o dia fica curto, deixando para amanhã coisas que me tomarão o tempo que virá.

Sempre tem gado para olhar, curar, mudar de pasto, levar ao curral. Tratores rodando, homens plantando. Vida correndo.

Passo o dia nessa lida calma e leve e ainda encontro tempo para andar, ler, mexer no computador e passear de motocicleta. No final da tarde quando me sento na varanda, aguardando a noite que se aproxima, em minha mente, bate o pensamento de gratidão, por viver do jeito que gosto: no movimento do mar e na solidão do mato.

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Filosofia de Infância outubro 17th, 2009

Ronaldo Zica

Ganhei há mais de cinquenta anos uma coleção de livros de meu pai que folhei a vida inteira sem ler nenhum deles em sua totalidade.

São livros para serem folheados e não lidos, mesmo. Sempre pensei assim!

Dentre eles tem um chamado Antologia do Pensamento Mundial. Uma miscelânia de pequenos escritos de diversos filófosos e homens importantes para a humanidade.

Hoje de manhã quando abri meu pequeno e gostoso escritório na fazenda Santa Joana, me deparei com o velho móvel de portas de vidro  que fica à sua entrada e de lá retirei o meu velho companheiro. Fiquei emocionado quando vi minhas anotações de infância. Quanta coisa bonita e cheia de sabedoria que já li em minha vida. Ali lembrei de uma pergunta feita por um amigo, recentemente, sobre qual era a maior invenção do homem. Ele afirmara que era a escrita. Tem razão ,Ivanor, é ela mesma. Pois é capaz de guardarcoisas incríveis nesse ajuntamento de letrinhas que vão criando palavras e frases na expressão do pensamento. Fica guardada é a mesma quando consultada e na hora que queremos.

Assim que abri aquele livro, com saudade, vi tanta coisa que apliquei na vida e quantas desprezei por incompetência ou descuido. Pequenas frases, citações, ditados, provérbios, textos e testemunhos. Sabedoria construída ao curso da vida de tantos homens importantes. Coisas cheias de encanto e de certezas. Por isso, ficaram.

Tem Átila, Pitágoras, o Mestre Jesus,  Nietzsche,  Amiel, Gibran, Tagore, Benjamim Franklin, Victor Hugo, Lope de Vega, Bernard Shaw, Rui Barbosa, Santo Agostinho, Confúcio, Voltaire, Demócrates, Whitman, Omar Al Khayan, Fenélon, Ésquilo, Goethe, Anatole France e inúmeros outros que de alguma forma ali deixaram seu pensamento.

Lembrei do meu tempo de menino curioso quando lia aqueles escritos e achava que os pensamentos surgiam como frases fora de um contexto e ficava criando algumas com  a minha filosofia do nada. Que tolice!

Não entendia, ainda, que a sabedoria era fruto da observação e de uma vida cheia de experiência e conhecimentos que são adquiridos ao longo dos tempos no curso da vida.

Li em voz alta a maioria deles e eles me tocavam com a mesma emoção dos meus tempos de adolescente. Sou observador e gosto de ver onde a bela filosofia está presente em meu viver.

Algumas são pequenas reflexões que podem nos fazer pensar por muito tempo. Outras, páginas pesadas com conhecimento e vigor dignos de serem analisadas a vida inteira.

Viver é desenhar sem borracha, como o diz o Millôr. Mas ao me deparar com tanta coisa linda escrita eu vejo quantos homens inteligentes e sábios passam pela terra marcando com profundidade essa existência desenhada com  conhecimento e arte, sem precisar de apagador.

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A loja dos sentimentos setembro 22nd, 2009

Ronaldo Zica
Havia uma pesssoa que tinha tudo e era infeliz.

Em um dia ensolado após uma chuva que deixara cheiro de terra molhada ela sai em seu carro a procura de alguma coisa para encher seu vazio interior.

Passou por vários lugares, matas, lagos, campos floridos. Passou por retas e curvas até que vê à distância uma loja diferente que ficava em um lugar harmonioso e florido à sombra de grandes e frondoas árvores e que incrivelmente tinha como produtos, os sentimentos.

Ele embriagado com tantas belezas desce e caminha em direção à porta. Que surpresa: prateleiras e mais prateleiras com caixas cheias de sentimento. Somente de bons sentimentos.

A maior era a do amor. Tinha a da sinceridade, da transparência, do afeto, da compreensão, do equilíbrio, da caridade, da amizade. A do carinho era suave e bela. Eram tantas…

Aquele homem pega as cestas que ficavam na entrada e começa a enchê-las. Caixas de amor, caixas de fidelidade, caixas de companherismo. Quem podia resistir as de carinho?

Pergunta ao vendedor que tinha um olhar brilhante e gestos calmos quais os preços daquelas preciosidades todas e ele lhe responde que não custavam nada. Ali tudo era de graça!

Como pode algo assim? Pergunta.

Cheio de prazer por conseguir tanta coisa boa, leva ao balcão e pede para embrulhar aquelas caixas lindas.

O balconista tira todas elas das cestas e leva para um reservado e volta com um pequena caixinha muito bem embalada para presente.

Surpresa mais uma vez!

___ Mas lhe dei tantas caixas e você me devolve apenas esta pequenina. Afinal, onde estão as que lhe entreguei?

___ Amigo, nesta loja temos  os bons sentimentos que queremos dar a todos que nos procuram. Não vendemos, damos. Mas só entregamos as sementes.

É preciso cultivá-las para ter o produto pronto.

P.S.: Esta história ouvi de um pregador na Irradiação Espírita Cristã em Goiânia.

A

 

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O motorista que não conhecia o itinerário setembro 17th, 2009

Ronaldo Zica

O MOTORISTA QUE NÃO CONHECIA O ITINERÁRIO

Parece mentira mas é a mais pura verdade este caso.

No sábado passado (12/9) assisti na Candelária um réquiem de Verdi com o coral e a orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Já era noite quando resolvi tomar um ônibus que fosse para o Recreio. Como demorava muito peguei um que me deixou em frente ao Barra Shopping, na Barra da Tijuca.

Desci e em seguida tomei um outro que me levaria ao destino. Entro e pergundo ao motorista se ele passava pela orla.

Ele me responde meio nervoso que não sabia o itinerário.

Como? 

___O senhor não sabe para onde vai?

___ Vou ao ponto final do Recreio, mas não sei por que ruas  vou passar. Tem um pessoal aí atrás que está me orientando.

Pensei comigo, como pode? Um motorista que não sabe o itinerário e precisa de passageiros para lhe indicar o caminho.

Ele falava alto e os que estavam na condução achavam graça de tamanho despropósito.

Além de motorista ele era também o cobrador. E eu dentro, preso na roleta, não sabia se continuava ou descia. Resolvi seguir para ver se era realmente verdade o que dizia.

Ao seu lado, separado por uma grade, um rapaz ia lhe ensinando: desce a Ayton Sena, retorna, contorna a Cidade da Música, segue pela pista lateral da Avenida das Américas, quando a pista estreitar passe para a principal. Preste atenção, eu desço no Mundial e aí você vai precisar de outra pessoa para lhe ensinar.

O motorista sempre reclamando e conversando com outras pessoas sobre a má qualidade do treinameno que recebeu da Viação Tijuquinha.

Dizia: é o meu primeiro dia e me colocam logo nesse lugar que não conheço nada.

Perguntei: amigo, mas nem uma viagem de reconhecimento?

___ Não, nada. Só me disseram, por cima, o que eu devia fazer.

Que irresponsabilidade, meu Deus!

Paramos em frente ao Supermercado Mundial e desceu o orientador.

Vira o motorista para trás e pergunta: Quem aí sabe o caminho?

Se apresenta uma jovem muito simpática, com cara de estudante, e começa a reorientá-lo. Vai em frente, depois que passar oSupermercado Zona Zul, você faz o retorno, desce a Gláucio Gil e chega à praia e aí é só pegar à direita e ir em frente.

___ Que rua é essa Gláucio, o quê?

___ Deixa que lhe explico. Gláucio Gil.

Correndo feito um maluco e  sem saber o itinerário ele foi fazendo o percurso que deveria ter aprendido antes de enfrentar aquela loucura.

Quando chegou à orla no terceiro quarteirão, desci. Deu certo. Era ali que eu queria ficar.

Agradeci e lá se foi o ônibus que certamente chegou a seu destino, também.

Afinal, além do motorista ele tinha bons  navegadores!

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