Archive for the ‘Versos’ Category

Um retrato em minha mesa setembro 22nd, 2009

Ronaldo Zica
para Maísa, com carinho.

Um ponto,
um grãozinho de feijão?
Não!
Eu tenho coração.
___ Afinal quem sou eu, então?
Que pergunta, pequenino…
___Você é sonho, amor, ternura, carinho.
É chuva em terra seca.
É água no calor.
Não sei ainda se é espada
ou se é mel.
Para mim, que diferença faz…
Importa é que você existe.
Os meus dias  não mai são os mesmos,
nem mesmas, minhas preocupações.
Minha vida enriqueceu
E meus dias, quem sabe, mais longos.
Quanta saudade você poderá matar
no meu coração concertado
e agora mais feliz.
Seu choro será canção,
suas bagunças, emoção!
O silêncio que hoje cala a noite
seja quebrado com seu risos.
Vem pequenino,
mas, vem devagarzinho.
Quero ter tempo para ajeitar meu colo.
Preciso ter tempo para lhe dar o tempo que quiser.
Hoje coloquei seu retratinho em minha mesa.
Que emoção quando lhe vi misturado a sua mãe.
Que preciosidade para mim!
Dentro de quem amo, sem tanto,
senti seu coração vibrando e busquei, lá longe,
a suave lembrança no dia que
ouvi o de sua mãe batendo.
Sempre lhe amarei, meu pequenino,
Não me anseio pelo dia em que a luz lhe mostre o mundo,
Para mim, você já nasceu.
E como sabe que lhe desejo tanto,
Não haverá maior encanto,
que esperar por esse encontro doce.

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Casa setembro 22nd, 2009

Ronaldo Zica

Quero uma casa viva, suave, equilibrada
que revele em cada canto
todo o meu interior.
Linhas retas, cortes amplos.
Piso simples, rústico.
Paredes quentes.
Terá árvores, muitas plantas
a emoldurar constante
o telhado branco.
Quero o álamo balançando,
pés de amora e
pássaros cantando.
Busco como eles um ninho,
um lugar, um abrigo, uma morada minha.
Quero cada manhã
ver o orvalho nas folhas,
sentir o cheiro do verde
e comer uma goiaba vermelha.
Quero abusar do sol,
queimar a pele, sonhar…
De mexer na terra,
minhas mãos serão de calos.
Penso nas flores, trepadeiras
amarelas, roxas, brancas e mescladas.
Quero plantar de tudo,
um pezinho de limão, jabuticabeiras, coqueiros,
sonhos, emoções, esperanças…
Ali quero encontrar na paz meus filhos,
minha amada, meus amigos.
O silêncio me envolverá
e poderei melhor sentir e ouvir, também.
Quero uma ópera ou uma música de Bach
e o cheiro de incenso no ar.
Essa casa não será um lugar qualquer,
pois nela habitará o sonho
de quem deseja apenas viver em paz.

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Indiferença setembro 22nd, 2009

Ronaldo Zica

Se uma dor profunda me envolve,
recolho em mim.
Quando falo, não me alivio;
se olho, nada vejo.
Nenhum instrumento sei tocar.
Também, não sei cantar.
Tenho que consumir minha dor,
sozinho…
eu não sou triste,
mas ninguém e tão assim
quando eu estou.
Que bem me faz um colo,
Um olhar,
pequenos toques de carinho.
Sem perguntas, sem conselhos.
Se o quero não tenho,
meu orgulho quebro
e busco.
As vezes acho, às vezes não.
Se a indiferença é forte,
que amargor!
Nada me resta,
senão sozinho,
consumir devagarinho
cada instante dessa dor.

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Minhas mãos setembro 22nd, 2009

Ronaldo Zica
Para o Enzo, que acomodado no ventre de sua mãe terá um dia minhas mãos a segurá-lo.
Com amor;
Vovô Daco

Respeito minhas mãos.
Silenciosas,
falam com gestos vigorosos.
Cegas,
me dirigem na escuridão.
São rudes, toscas,
cheias de rugas e veias.
Os dedos são tortos e desiguais.
A falta de carne deixa os tendões à mostra.
De tão magras se machucam tanto,
guardando nelas as cicatrizes que as vão marcando.
Minhas mãos são instrumentos
de trabalho e de carinho.
Às vezes destemperadas revelam aflições.
Com elas planto no solo a semente que germina.
Com elas domo o gado com o chicote e o ferrão.
Elas metem o freio no burro boca dura
E apertam com força a barrigueira
em um esquentado alazão.
Quero que minhas mãos semeiem sempre a vida,
nunca a morte!
Desejo minhas mãos produzindo,
limpando, polindo,
fazendo versos, criando.
Espero que elas nunca pratiquem uma injustiça,
um mal, um engano.
E que junto com meus olhos e meus ouvidos
deixe-me escrever o que sinto.
Minhas mãos que adoram o toque
sejam para a mulher amada
uma fonte de desejo e paixão.
Com elas troco fraldas, lavo pratos e roupas,
corto o alimento que mantém a vida
e levo o corpo inerte à morada do fim.
Mãos que cativam e que afagam,
mãos insanas que às vezes chicoteiam e maltratam.
Peças anatômicas sem iguais,
incomparáveis em utilidades e expressões.

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Coisas Simples setembro 21st, 2009

Ronaldo Zica

Admiro as coisas simples:
Um pote sobre um banco,
Uma madeira lavrada,
Caibros roliços, paredes de adobo, ripas de bambu.
Admiro as janelas de tábuas desaparelhadas,
Um fogão de lenha a fumegar constante,
Um pedaço de pele de porco dependurada
Junto as manchas de picumã.
Respeito um esteio bem fincado,
Um laço bem trançado
E uma vara aprumadinha de ferrão.
Gosto de ver o monjolo trabalhar,
O gado pastar e sobre o galope do cavalo me perder.
Paro sempre para espreitar um pé de ramo
Que entre fendas apertadas
Se esforça pra vingar.
Um porquinho que nasce sem cuidados,
Com desprezo, entre velhas palhas sujas,
molhadas, sem carinho…
Um ninho desleixado, cheio de ovos.
Várias angolas gritando ao mesmo tempo,
Uma galinha assustada carcarejando sem parar
Com minha presença indiscreta.
Tudo que é simples é bom.
O grito do vaqueiro,
O barulho do leite no balde.
Um pezinho de mandioca,
Uma fruta bem docinha.
Amo o cheiro do curral,
O cavalo fogoso, forte e atrevido.
Um pequizeiro em flor.
O coqueirinho na porta, o milharal.
Tenho dó do cachorrinho vira-latas, com fome,
medroso desconfiado.
As coisas banais são puras, autenticas.
Emociono-me com as mãos calejadas do homem
que mexe a terra com firmeza e energia.
Amo o ser que constrói
que luta, que busca, que realiza e vence.
Acima de tudo, amo a vida, em suas coisa simples e boas!

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Araguaia setembro 21st, 2009

Ronaldo Zica
Para o meu pai, quem sempre amei,
e que me ensinou a amar esse rio lindo.

Vejo o sol se pondo em brasa
refletindo-se nas belas águas do meu rio.
Solto meu pensamento
e reencontro em meu passado, o menino.

Amo suas águas amareladas,
Suas matas monótonas e iguais
que emolduram o seu correr suave em direção ao Norte.

Nos meus pés magros e feios
sinto o calor da areia solta se desmanchando em gritos ao ser pisada.

Nas margens desse rio encantado aprendi a ver estrelas em noite escura,
sentindo o cheiro de mato verde e chuva fora da estação.

Deito na praia, de barriga para cima, acompanhando o vôo dos pássaros,
o grito das gaivotas, o ciúme das curicacas …

O bater de peixes na subida dos cardumes, fazendo marola e chamando atenção.
O ataque dos botos, e a farra da pescaria com linhada de mão.

Lá aprendi os sinais dos bichos
vendo quanto a natureza pode ensinar aos homem a viver em harmonia.

Em seus barrancos cobertos pelo saran e na areia fina da praia
tive minha primeira de tantas outras noites de amor e de prazer.

Batelão cheio, navegando devagar:
tralha de pescaria, comida no balaio, gente amiga,
a companhia de meus pais…

Em suas águas, quase perdi a vida
no deslocar de um banco de areia que tragaram tantos para ficar consigo.

O espinhel cheio de peixes,
o fogo sempre acesso,
o calor intolerável com o sol escancarado.
Adormecido e calado na madrugada gelada
que se desperta devagar com o cantar do mutum.

Rio Araguaia, testemunha de minha história de homem comum e vulgar.
A saudade guardada no meu interior de menino,
é uma lembrança que afago nas marcas deixadas
em sementes de vida que um dia larguei em amores
em suas praias tão lindas.

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