A Mala Verde da Tia Nair outubro 4th, 2010

Ronaldo Zica
No depósito da minha chácara ficou guardada por muitos anos uma mala, daquelas antigas, meio arredondadas, que não sei se era de madeira ou papelão; revestida por uma lona verde que tinha em seu fecho um pequeno cadeado.
Todas as vezes em que eu organizava aquele espaço,  pegava a mala, tirava a poeira, e a recolocava na prateleira. Para mim era algo do meu cunhado Roberto e portanto não me preocupava com o que estava  dentro. Ele viajava muito e eu pensava que deixara ali algumas coisas guardadas que não lhes fossem necessárias, pois nunca  procurava por ela.
Aquela mala não me intrigava. A tratava com naturalidade como qualquer coisa que ficava ali sem muita importância. Como sou pouco curioso, apenas  limpava e a recolocava no mesmo lugar.
Os anos foram passando. Depois de uns quize, um dia ,chamei a Marilda e disse-lhe para ligar para o Roberto e saber dele o que fazer com aquele objeto. Afinal, eram muitos anos zelando de uma mala sem saber por quê.
Para  minha surpresa o Roberto informou que ele nunca teve nada guardado lá. E que aquela mala não era dele. Que loucura, Meu Deus, eu cuidando de um bem por tanto tempo, pensando que era de uma pessoa, e agora ele não tinha mais dono.
Resolvi violar o cadeado e ver o que tinha dentro. E ao abrir, para surpresa, maior ainda, a mala continha objetos que pertenceram a Tia Nair, que morrera há vários anos.
Dona Nair é uma das tias de minha mulher. Solteira, de temperamento forte, querida e respeitada. Professora de várias gerações. Como nunca se casou, adotou os sobrinhos como filhos e ajudou a cuidar dos dez de sua irmã, minha sogra.
Era uma pessoa magra, de comportamento disciplinado e severo. Quando a conheci há uns quarenta anos ela era uma pessoa de meia idade. Muito religiosa, guardava em si os envolvimentos com a Igreja na matriz de Campinas, onde a familia, vindo de Minas Gerais, se estabeleceu. Seu pai era farmacêutico. O primeiro daquela cidade – Campininha da Flores de Nossa Senhora da Conceição - que mais tarde se tornaria o bairro conhecido de Goiânia.
Pensei: como pude guardar por tanto tempo, coisas tão pessoais, sem que ningúem as reivindicassem ou dessem qualquer pista, ou sentissem  suas faltas.
Pedi novamente a Marilda que ligasse para sua mãe para ver o que fazer com aquelas peças que, possivelmente, teriam sido importantes  para sua dona. Papeis, santinhos, missais, terço, velas…
A resposta é que em seu apartamento não havia espaço para acomodar aquela mala. O que fazer, então, com o que estava dentro, se tudo aquilo só interessava a quem já não vivia mais? Não havia herdeiro direto ou quem quizesse guardar os objetos como lembrança…
Que lição aprendi naquele dia, fiquei pensando. Quantas coisas guardamos na vida que só interessam a nós mesmos e que damos um grande valor e não têm  utilidade para mais ninguém. Lembrei-me de alguns bens que pertenceram a dona Amália Hermano, que comprei após sua morte em processo de liquidação do espólio. Quantas coisas acumulei que só tem importância para mim e que, possivelmente, terão os mesmos destinos dos encontrados na mala da tia Nair ou nas coisas vendidas de dona Amália!
Será que vale a pena guardá-las?

This entry was posted on segunda-feira, outubro 4th, 2010 at 11:38 and is filed under Diversos. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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